Rubens Rodrigues Torres Filho .parte I.

poema semipronto*

Dante fez o que quis.
-  -  -  Beatriz.

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*) Adicionar água e levar a fogo brando.

A arqueologia da palavra é tarefa compartilhada pelo filósofo e pelo poeta. “As palavras são símbolos que postulam uma memória compartilhada”, segundo Borges. Trabalho minucioso, do espírito e da letra. E se acontece-lhe ser feito na poesia escrita por um filósofo, como o é Rubens Rodrigues Torres Filho, ganha um polimento ambivalente porém exato, um humor fino que permite-se chegar a vocábulos eruditos ou expressões coloquiais com a mesma facilidade – e com a mesma ironia.

Poeta solitário, alheio a escolas, grupos ou modismos, mesmo porque a poesia foi-lhe tarefa secundária – quase um capricho, segundo o poeta Cacaso (Antônio Carlos de Brito) – em relação à filosofia, seu objeto de estudo e interesse primeiro. Rubens foi professor de filosofia moderna na Universidade de São Paulo, especialista na filosofia de Fichte – a respeito da qual escreveu uma notória tese, O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte –, comentador da filosofia alemã, sobretudo dos períodos conhecidos como o Idealismo e o Romantismo, profícuo tradutor de obras de autores como Nietzsche, Novalis, Benjamin, Adorno, Schelling, Kant e Fichte. Nos trabalhos filosóficos vemos sua poesia – a sua articulação de uma brincadeira com a hermenêutica das palavras – em germe. Suas traduções já possuem o cuidado preciso com as palavras, equilibradas como numa escultura; seus comentários de filosofia, o humor irônico que lhe é peculiar.

ensaio

Sempre uma tentativa de recomeço,
um abalo para diante,
embalo, impulso, empuxo –
uma volta e revolta da experiência,
reviravolta de dados para enfeitiçar o acaso.

Em 1997, a editora Iluminuras lançou a coletânea Novolume, uma compilação de todos os livros, alguns poemas novos, inéditos, e traduções de Rubens Rodrigues Torres Filho. Lendo sua poesia em ordem cronológica a partir das primeiras publicações, é possível sugerir que ela foi condensando um humor cada vez mais ácido. Sua ironia tornou-se cada vez mais limpa e precisa, com o passar dos anos apurou-se e passou a concentrar gamas cada vez maiores de significados com poucas palavras, certeiras.

Rubens publicou A investigação do olhar, em 1963, Nem tanto ao mar, em 1965 e, o breve Poema desmontável, espécie de brincadeira com os concretistas, data de 1965 a 1967. Depois destes, seu próximo livro de poesia foi publicado apenas em 1981, O vôo circunflexo, que reúne poesias escritas durante diferentes épocas da vida do poeta. É a partir deste intervalo editorial que reconhecemos um certo amadurecimento da poesia e de sua ironia, além da manifestação mais elegante e espirituosa da filosofia, flagrada entre chistes e jocosidades nos poemas. Após O vôo circunflexo, o contexto de ironias é mais cortante, tanto em A letra descalça, de 1985, como em Poros, de 1989, em Retrovar, de 1993 ou nos Poemas novos, escritos entre 1994 e 1997. Como disse Viviana Bosi, em artigo escrito à revista Terceira Margem, Rubens

“aparentemente saiu de um lirismo tardomodernista epigonal, praticado em São Paulo nos idos da década de sessenta, com influência francesa de um suave surrealismo amoroso éluardiano, e enveredou mais tarde pela concisão e pelo humor melancólico”.
(Bosi, Rubens Rodrigues Torres Filho: verso e avesso)

Reconhece-se uma mudança de tom na sua poesia, que encontrou registros cada vez mais zombeteiros. Os poemas publicados até a década de sessenta podem ser lidos como uma espécie de prelúdio aos poemas mais recentes, tendo como fio condutor, presente em todos os momentos de sua trajetória poética, a ironia, que, olhada sob o prisma da coletânea, traveste-se camaleônica, multiforme:

cáustica – “se vem do cú é menos expressão?” –, graciosa – “borboletreiramente” –, filosófica – “e coisa e Tales” –, ou elegante – “Aqui e agora / o now e o here / formam meu pícolo nowhere”.

Arthur Nestrovski em uma resenha a Novolume, escrita ao jornal A Folha de São Paulo, fala um pouco sobre essa tentação de ler os poemas comparativamente, numa coletânea que abrange toda a vida poética do autor. Nestrovski fala da “poesia do pensamento de Rubens Rodrigues Torres Filho”, que expressa “a obsessão de um prisioneiro da linguagem, sem ilusões quanto à possibilidade de fuga”, problemática cujo eco abstrato traduz um poeta plenamente irônico: “e é bom frisar que não se trata de uma figura de linguagem: é uma condição do texto inteiro”.

Na epígrafe ao seu primeiro livro poético, Investigação do olhar, existe talvez o indício de uma fagulha inicial dessa ironia tão marcada na sua poesia:

“A poesia, esforço da linguagem, será primeiramente “lógica”. Não há perdão possível. A poesia deve ser escavação e tortura. Não há flores no rosto, mas roteiros nas mãos. Eis o caminho”.
(“anotação antiga”)

A poesia, esforço da linguagem, deve realizar a escavação dos significados e a tortura da palavra. É a fórmula para o “lúdico cético” cultivado na poesia de Rubens, o cerne de sua ironia. Esse ceticismo lúdico, quem define é Viviana Bosi, que diz:

“(…) a ironia hoje, ainda que descenda do poema-piada modernista ou do ouriço romântico apresenta um tom algo diferente: um contraste menor com o “alto” ou “ideal”. (…) a partir de meados de 60, quando a nova ironia de Paes e Sebastião se afirmou. (…) o horizonte do futuro torna-se cada vez mais apertado e, especialmente com os marginais, desencantado. Cremos que Rubens cultiva o lúdico cético dessa nova onda dos “pós-utópicos”. Por outro lado, se haveria alguma semelhança entre sua poesia e a dos marginais – pelo viés do descompromisso aparente com as “instituições sociais e culturais”, nele isto não se deve a algum tipo de entusiasmo juvenil e sim, ao contrário, pelo ceticismo que nem no próprio – ceticismo – acredita”.

É o problema do desencantamento com o futuro, típico da zombaria dos poetas marginais e que figura um ceticismo exacerbado. Mas um ceticismo que cultiva gracejo ou ludíbrio, de que resulta uma ironia cortante. Na obra poética de Rubens, o anonimato da poesia nas mãos do filósofo encontra na ironia penetrante e mordaz a evasão para a desilusão do mundo e da própria ideia histórica e sistemática de verdade.

elogio do oco

O oco desfaz as dúvidas
quanto ao vazio do que é:
ninguém fica sem recado.
Todos sabemos direito
o que importa a seu respeito.
O oco é fácil e honesto.
Não digo o mesmo do resto.

(in: Poemas Novos, 1994 – 1997)

Essa desilusão tão lúcida é constante através dos livros da poesia de Rubens. No poema “(duplo) resíduo”, por exemplo, do livro A letra descalça (1985), por exemplo, o poeta diz: “Antigamente eu acreditava nos direitos / de minha subjetividade soberana. / Hoje em dia não há mais direitos nem esquerdos:”. Os direitos da soberania da subjetividade não mais existem, assim como também não existe mais a própria subjetividade, pois “não há mais direitos nem esquerdos”, há apenas um caminho, estreito, um fio, que delimita as possibilidades, que marca o limite do mundo. A alma está vazia, sem direito à escolha de seus próprios caminhos e, com uma desesperança irônica, seu vazio é comparado à crescente ausência de fios de cabelo na cabeça cada vez mais calva.

O ceticismo lúdico é, portanto, na exata palavra do poeta, o “niilirismo” – título de um poema de A letra descalça –, um vazio pungente que sobra no leitor após a leitura dos poemas, apesar e devido ao seu viés lúdico. Segundo Cacaso,

“o seu virtuosismo parece disfarçar um niilismo mais profundo, que vibra como uma sensação de vazio na experiência final do leitor. (…) Na sucessão de despistamentos a que somos levados, a sensação que perdura é de rarefação, de falta”.

O “niilirismo” é ironicamente recorrente nas referências a temas musicais e a evasões náuticas, metáforas marítimas, em diferentes épocas. Nos poemas com referências musicais, ressoa especialmente a elegância da poesia de Rubens. Em Nem tanto ao mar (1965), por exemplo, há uma indicação de andamento, como em uma peça musical, “(largo – alegro – largo)”; o poema desenvolve-se em duas vozes, como tocadas ao piano, um baixo e uma voz alta. O vai e vem que brinca e não se entrelaça, como perguntas e respostas que uma faz à outra, dentro da harmonia conjunta que as rege. Perguntas que ecoam em uma ou outra nota, em uma ou outra palavra, a resposta – dominante e silenciosamente tônica: nem tanto à terra; pêndulo mudo.

Em “imitação de Mozart”, outro exemplo, poema de O vôo circunflexo (1981), a forma sonata é estilizada, dando corpo irônico ao poema de amor (-próprio). Uma espécie de modulação de compasso ajuda o ritmo incerto e sincopado da parte final do poema, intensificando a ironia – a primeira parte é um movimento mais rápido, em pares de duas estrofes por verso, num ritmo mais marcado e mais impaciente, o enamoramento pândego; ao passo que a segunda parte demora-se mais, escrita em três estrofes por verso, o tempo mais lânguido, após as decepções amorosas: o choro, solista afinal, acompanhado por um baixo contínuo, o amante conformado. A forma sonata normalmente era composta no classicismo por três movimentos, exposição, desenvolvimento e reexposição; aqui é como se o amor não tivesse reexposição, se prostrasse no desenvolvimento, solista, do choro. O poeta adverte seu leitor: deve apaixonar-se, mas manter-se fora do mundo de puros devaneios, “as flores abrem asas de manhã”, mas as fecham, pesadas, sobre si mesmas à noite, o mundo real chama, embora o amor ensurdeça os ouvidos enamorados. “É bom cantar de amor”, mas não desencantar o próprio amor. Ironicamente, em um poema que aparentemente apenas celebraria o amor, Rubens chama seu leitor para a consciência das possibilidades reais cotidianas. Na primeira parte do poema, em todas as estrofes ele cria um encantamento ou um horizonte positivo no primeiro verso e os desfaz cruelmente no segundo. Na segunda parte, o tom desiludido é reforçado pelo afastamento, “e te destaco do peito”. Entre o fazer e desfazer sobra a confirmação da desilusão, o pessimismo e a negação, a previsão do desencantamento do amor.

Há um jogo hermenêutico específico quando aparecem os temas musicais: um dos prazeres da música é decorrente do ritmo, ou tempo e compasso, um prazer que fundamenta-se numa sucessão de sons, regulamentada. Transposto em criação mimética dos versos poéticos, em que a própria pronunciação das palavras submete a voz ao tempo e ao compasso, tem-se a imagem da decomposição do pensamento à maneira de seu próprio reflexo: sequência de signos verbais substituindo a simultaneidade das representações, resta à linguagem seu paradoxo tautológico, enquanto efeito das operações mentais, ela é também constituinte da elaboração dessas operações. Na poesia de Rubens, a articulação de relações de interpretação dos signos e valores simbólicos da própria linguagem encontra respaldo e conduto na ironia, profunda e vertiginosa e mesmo brutal.

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(Desenho de Odilon Redon, Gênio sobre as águas (1878), feito a carvão, da série de desenhos Negros: “… destruídos e desagregados, cada um com os olhos magoados, no abandono de si mesmo e do lugar” (Odilon).

 

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Como um solo de violas

como um solo de viola, grande sertão veredas - ilustração de Isabela Gaglianone

 

Digo-lhe, que se perguntarem, me diga um livro muito bonito para ler, minha memória cairá nas vertentes do viver de Grande sertão: veredas. Explanações pareceriam reles, o livro jorra beleza desde sua primeira palavra, Nonada. Derrama-se, goteja-se, verte-se. Caudaloso. A prosa demora-se em sua própria poesia, são veredas no texto as suas construções poéticas: líricas, inesperadas, vivas como um curso de água: os abundantes travessões dão a imagem, na página impressa – veredas –, vertentes em meio à prosa, comentários em meio à narrativa. Inúmeras variações sobre o próprio título. Os dois pontos fluem o texto em sucessivos riachos de poesia, que, por suas frases, umas nas outras, deságuam-se. Águas fortes, plácidas ou dramáticas, pela chuva ou pelos rios, a narrativa vai e volta levada pelas sensações das águas na lembrança de Rio baldo; o próprio narrador é como um rio de curso longo e tortuoso.

“ – “… Pois a minha não conheci…” – Diadorim prosseguiu no dizer. E disse com certeza simples, igual quisesse falar: barra – beiras – cabeceiras… Fosse cego de nascença”.

A beleza e o estranhamento dos entroncamentos de águas, enraizadas na língua viva da poesia. A língua poética não serve a um propósito – ainda que siga servindo – não é um meio, mas um fim em si mesma. Remexidas como as pequenas pedras soltas pela correnteza do fundo de um rio, as palavras ganham vida ambivalente: deslocadas, agrupam em si novas maneiras de significância e de relação com as que lhes margeiam: poesia em prosa. “Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. Esse sertão, por onde rolam, fugidas, as braças águas, tem a beleza e a tristeza de um solo de violas. Timbre deslocado da harmonia para a melodia, corredeira doce, voz a um tempo aguda e grave, chora e canta, em largas águas, derramando-se em serena vereda. O sertão que há dentro de um texto, entrecortado pela poesia das palavras, pelo movimento vivo da própria linguagem, a melodia tocada por um breve solo de viola amanhece.

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Talvez a melhor tradução musical a essa ideia seja a Suíte Nordestina, de Guerra Peixe. Outros bons exemplos são também as peças de Radamés Gnattali, como o Concerto para viola e orquestra e a Sonata para viola e piano.

A edição 59 do programa Clave de Solencabeçado por Irineu Franco Perpétuo, apresentou gravações destas peças realizadas pelo violista Perez Dworeckio húngaro-brasileiro que foi um dos maiores instrumentistas do Brasil, sensível intérprete à viola, em grata homenagem após sua morte.

 

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MARÍAS, Coração tão branco

livro Coracao tão branco, de Javier Marias

(Companhia das letras, tradução de Eduardo Brandão)

“Era simplesmente instalar-se na convicção ou
na superstição de que não existe o que se diz.”

 

O título Coração tão branco do livro do espanhol Javier Marías é uma alusão a um verso de Shakespeare, um diálogo em Machbeth:

My hands are of your colour, but I shame to wear a heart so white
[Minhas mãos são de tua cor; mas me envergonha trazer um coração tão branco].

A alusão desenvolve-se em breve comentário num dos decorreres do fluxo de consciência do protagonista narrador, um tradutor. Ele percorre mentalmente este e alguns versos circundantes, reconstruindo a cena e a história, interpretando-os, revirando os sentidos por trás de suas palavras, à maneira de um cacoete profissional, por impulso de pensar suas possíveis traduções. Continue lendo

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Musil, o homem de possibilidades .parte II.

 A ironia de Robert Musil chegaria a ser desconcertante, não fosse sua elegância, a sutileza com que simplesmente permeia as situações do romance. A ironia não é escancarada em palavras ou expressões, reside antes no simples espelhamento de diferentes relações entre diferentes personagens, à maneira de uma fuga musical. Essa ironia é o que faz satírico O homem sem qualidades. Filosoficamente satírico, inclusive, pois põe em questão a moral frente à impessoalidade do homem moderno, enquanto homem de pensamento, imerso numa complexa dinâmica de possibilidades e impossibilidades. Movimentos de paixão e razão, utopias de resguardo inescrutável. Continue lendo

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Musil, o homem de possibilidades .parte I.

no princípio

Filosofia então teve início
na tentativa de liquidação
do universo (arranjo,
adereço, cosmético): promessa
de fluidez sem caroço
e coisa e Tales.

Meditações mediterrâneas. Hidráulica
arcaica. Absoluto
dissoluto.

A primeira
imprecisão é a que fica?

Rubens Rodrigues Torres Filho

 

MUSIL, O homem sem qualidades

(Nova Fronteira, tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth)

O homem sem qualidades é logo apresentado a seu leitor. Sua principal qualidade é não ter nenhuma, pois ele é desprovido do dito senso de realidade e possui, em seu lugar, um senso de possibilidade:

Assim, o senso de possibilidade pode ser definido como capacidade de pensar tudo aquilo que     também poderia ser, e não julgar que aquilo que é seja mais importante do que aquilo que não é. (…) não raro fazem parecer falso aquilo que as pessoas admiram, e parecer permitido o que proíbem, ou ainda fazem as duas coisas parecerem indiferentes. (…) podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades” (pp. 34-36).

Se concordarmos com Maurice Blanchot, veremos o tema do livro inscrito em seu título e o tal ‘senso de possibilidade’, assim exposto nas primeiras páginas do monumental romance, como sua chave fundamental de leitura.

A expressão ‘homem sem qualidades’, embora de um uso elegante, tem o inconveniente de não ter o sentido imediato, e de deixar perder-se a idéia de que o homem em questão não tem nada que lhe seja próprio: nem qualidades nem tampouco nenhuma substância. Sua particularidade essencial, diz Musil em suas notas, é que ele não tem nada de particular.”
(Blanchot, O livro por vir).

O homem em questão, portanto, seria não exatamente sem qualidades, mas sem peculiaridades. “Nada, precisamente nada!”, “eis a espécie que nossa época produziu”, é o que diz sobre ele o antigo amigo que lhe confere a alcunha. Tudo, para este homem sem peculiaridades, o que acontece e também o que não acontece, equivale-se como variações plausíveis, genuínas possibilidades. Por isso ele não consegue decidir-se, nem mesmo por um caráter. Por isso talvez também Musil não tenha conseguido jamais terminar seu romance. Pois o romance é inacabado, mas metaforicamente também o é seu protagonista, impreciso, em seu mundo restrito a infinitas e incontornáveis potencialidades.

Num incerto salto tigrino que corre o risco de nos levar tão somente a um anacronismo berrante, fazem coro palavras de nosso contemporâneo escritor espanhol Javier Marías no seu romance Coração tão branco:

(…) o que vemos e ouvimos acaba se assemelhando e até se igualando ao que não vimos nem ouvimos, é apenas uma questão de tempo, ou de que desapareçamos. (…) O que ocorre é idêntico ao que não ocorre, o que descartamos ou deixamos passar idêntico ao que pegamos e agarramos, o que experimentamos idêntico ao que não provamos, e no entanto vai-nos a vida em escolher, rejeitar e selecionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça de nossa história uma história única que recordemos e possa ser contada.
(Marías, Coração tão branco).

Para ele, o que aconteceu e o que poderia ter acontecido entrelaçam-se, tem a mesma concretude, apesar serem definitivos e desembocarem na retumbante pergunta, “e agora?”. Para o homem sem qualidades, o que não existiu não deixa de existir como potência e resguarda-se em divagações ou investigações filosóficas, especialmente morais, que se desdobram em suas ações e opiniões. Também o que aconteceu poderia ter acontecido de outra maneira. Os fatos estão sempre prestes a inverterem-se de acordo com as relações estabelecidas, dentro dos maleáveis limites da pura possibilidade. Mesmo realidade e utopia mesclam-se indefinidamente. A verdade perde seu estatuto ontológico e desmorona-se em fragmentos possíveis.

O tema desenvolve-se no personagem e vice-versa. Os dois complexos temáticos que dividem o livro e sobre os quais modula sua tonalidade acabam sem peculiaridades que os explique ou resolva. Tanto quanto o homem sem qualidades, são pura plausibilidade. É por isso que Blanchot pode referir-se ao protagonista como uma representação do homem moderno: impessoal, abstrato, imerso na “neutralidade das grandes existências coletivas”, a quem as sequências de possibilidades são ilimitadas e que, “por vocação e por tormento, [tem] de viver a teoria de si mesmo, o homem abstrato que não é e não se realiza de maneira sensível”. Ulrich – nosso protagonista ganha um nome após ter sido apresentado como um “homem sem qualidades”, mas jamais um sobrenome – é uma abstração. Uma abstração intelectual, cuja humanidade é dramática, pois desenrolada principalmente no incesto nunca concretizado; mesmo sua relação consigo mesmo tem que ser projetada num outro, quase gêmeo, a única possibilidade de amar a si mesmo é através de um espelho.

A condicionalidade é perpétua e irresoluta. Ao contrário do que ocorre no conto “Na galeria”, que Kafka inicia com uma partícula condicional “se”, numa frase que é todo um parágrafo. Ela guarda uma possibilidade que é somente sonhada, o que diz o segundo parágrafo, espelhado: a realidade, que faz chorar. A possibilidade, alí, é quimérica, ao passo que a realidade, concreta, imutável e frustrante. O conto é marcado por quatro tempos: “se”, “– talvez”, no primeiro parágrafo, e, no segundo, “mas [uma vez que não é assim]” e “– uma vez que é assim, o espectador da galeria apoia o rosto sobre o parapeito e, afundado na marcha final como num sonho pesado, ele chora sem o saber”. Em Musil não há desilusão, pois ele está imerso na imprecisão de sua própria impossibilidade.

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Musil e Dostoiévski – Modulações

Não que se diga de um homem sem qualidades que seja de todo um idiota. Mas em uma sociedade imperial ou czarista, muito se diz a respeito das personalidades mais excêntricas. Pois as altas rodas dessas sociedades costumam maldizer personagens que as observam com perspicácia, ainda que tais personagens mantenham certo alheamento social. Vivendo nessas sociedades, o idiota é ridicularizado por sua ingenuidade; o homem sem qualidades por seu sarcasmo pessimista. Ambos são personagens permeados por um diagnóstico crítico, de época e de mundo. Assumem discretamente um tom satírico e sua simples existência meio descabida nessas sociedades em que se inserem é espelhada nas personagens ao redor, o que acaba por tipificá-las – tipos quer sociais, quer psicológicos, nas vestes de uma generala ou de uma Diotima. E, se ridicularizados, nessa sociedade que os espelha como numa sonata, quer dizer, retomando e reexpondo seus temas em outros registros, eles, com a irrefutável capacidade de rir-se de si mesmos dão vazão à risibilidade latente das discussões sérias feitas em sociedades que levam a si, e a seus modelos, demasiado a sério – nota: um elegante conde séculos antes já sugerira, a verdade deve passar no teste do ridículo. A crítica refletida é sutil e precisa.

A impressão é a de uma música, sob a qual as personagens se organizam. Os tipos dançam, ao som dos acordes em voga, à maneira de cenas que se sucedem com entradas e saídas do palco, dançarinos com figurinos em meio a cenários requintados e significativos, através dos quais, porém, um idiota ou um homem sem qualidades, cada um a seu jeito, parecem caminhar calmamente, incomodando as coreografias; caminham pela cena, alheios, de calças compridas e olhar reflexivo mesmo que em plena encenação de um pas-des-deux. Figuras quiméricas em meio a retratos do homem moderno.

o homem sem qualidades e o idiota

 

 

 

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Justa homenagem a Hilda Hilst

uma homenagem a escritora brasileira Hilda Hilst

Uma justa homenagem a uma grande escritora brasileira chamada Hilda Hilst. Morreu há exatos 9 anos, e os textos que guardo mais vivos na memória são os de sua “tetralogia pornográfica”: Caderno Rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio. Textos Grotescos, Cartas de um sedutor e Bufólicas. Foi um ato consciente quando Hilda Hilst resolveu “escrever este livro porque ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu”. Aos 60 anos de idade, como o narrador Crasso dos Contos d’escárnio, o lirismo da poesia de Hilda cede lugar a zombaria.

A escatologia enoja os puritanos, os moralistas de araque. Não é possível que não se deliciem com tal construção: “Todo mundo quando me via dizia: lá vai o Crasso, filho daquela da crassa putaria. Eu ficava com os olhos úmidos mas logo em seguida, apesar da minha timidez, mostrava o pau”; é o início de uma incrível rapsódia travestida de obscenidade. Na minha opinião, é na prosa satírica onde a lucidez crítica atinge seu mais alto grau de perfeição. A dimensão política é inegável: aos olhos do leitor atento, cúmplices do despudor, da poesia e do riso, o livro transforma-se numa “síntese amplificada, vale dizer, obscena e cruel, de todas as obscenidades dissimuladas, institucionalizadas, normalizadas e naturalizadas na paisagem brasileira e humana”, nas palavras de Alcir Pécora.

Foi em 2001 que a Editora Globo comprou os direitos da obra de Hilda Hilst e passou a reeditar a Obra Completa da escritora. Quase todos os volumes já estão disponíveis em ebook, para deleite do jovem leitor. Mas que as palavras de Jocasta sirvão-lhes de sobreaviso: “Já dizia um rei: um livro nas mãos é uma foda de menos”.

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50 anos da célebre New York Review of Books

Não tem nada de atual o problema da crítica literária em forma de resenhas: The Decline of Book Reviewing foi um artigo publicado no remoto ano de 1959. Foi ele que serviu de inspiração para a criação, quatro anos depois, da New York Review of Books. Se a célebre NYRB faz 50 anos mostrando um certo cansaço, ao pensar na crítica literária publicada nos jornais impressos brasileiros, percebe-se logo que chegamos ao fundo do poço. Outras iniciativas mais promissoras como a Dicta&Contradicta geram polêmica que se restringiram a um pequeno grupo de leitores; o Jornal Rascunho não desperta a atenção necessária com suas resenhas; a revista Serrote não dialoga com a realidade cultural e política brasileira, apesar da agradável leitura de seus ensaios traduzidos; o Jornal de Resenhas morreu. Continue lendo

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Pelas ruas, bares e prostíbulos – A poética expressionista de Hansen Bahia

“Como é simplista o trabalho dos escrivinhadores de
arte, e mais simples ainda, quando conseguem situar alguém
dentro da linha, desde há muito totalmente encalhada, da
arte-de-moda-universalmente-aceita contemporânea”
(HANSEN, Jornal da Bahia, 1970).

Na alegria pacata da ida Bahia do início da segunda metade do século XX, reduto de tranquila espontaneidade, dos saveiros e dos coqueirais, o artista alemão Karl Heinz Hansen encontrou os motivos de maior inspiração para suas xilogravuras. Marinheiro traumatizado após ter lutado na segunda guerra mundial, veio ao Brasil e aqui descobriu ancoragem propícia ao desenvolvimento de sua poética expressionista. Continue lendo

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Fábula de um leitor moderno

O livro impresso:

Lembro-me do dia em que estaquei diante da vitrine de uma livraria [in memoriam]. Aquela edição era um tanto feia mas exalava monumentalidade. A densidade de seus 9 volumes se acumulava ao redor do título estampado na capa: História da Literatura Ocidental. Nunca soube seu preço: seria uma obscenidade exigir do livreiro que quantificasse o valor daquela obra. Fugi desesperançoso.

Primeira Edição da História da Literautra Universal, de Otto Maria Carpeaux

O ebook:

Sem muito ânimo navego pela sessão de ebooks [causa mortis] da Livraria Cultura quando surge em minha tela uma sugestão: a História da Literatura Ocidental por Otto Maria Carpeaux, de R$119,99 por R$113,99 ou em até 3x de R$38,00. Uma série de sobressaltos: comprar, fechar pedido, identifique-se, forma de pagamento, código de segurança, fazer o download. Enfim descubro a dedicatória a Aurélio Buarque de Holanda.

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Matinais Literárias – 30 janeiro 2013

Leitores: alguns links literários ou editoriais de artigos, resenhas ou entrevistas acompanhar seu café da manhã.

  • Vargas Llosa faz crítica pesada ao mercado cultural (folha de são paulo)
  • Governo brasileiro investirá 35 milhões de dólares em 8 anos na promoção da literatura brasileira no exterior (melville house)
  • Ricardo Costa, ex-diretor do PublishNews, será o advisor brasileiro na edição deste ano da Frankfurt Buchmesse (the bookseller)
  • Governo de Antígua e Bermuda quer lançar site de pirataria em retaliação aos EUA com autorização da Organização Mundial do Comércio (IDGnow)
  • Ensaio aponta livro O filho do pescador (1843), de Teixeira e Sousa como primeiro romance brasileiro (prosa & verso)
  • A poeta e a pedra, por Eucanaã Ferraz e poemas de Wislawa Szymborska (revista piauí)
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Matinais Literárias – 28 janeiro 2013

Leitores: alguns links literários ou editoriais de artigos, resenhas ou entrevistas acompanhar seu café da manhã.

  • Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, fez aniversário ontem: são 200 anos desde sua publicação (El Pais)
  • Leonardo Pastor entrevista a tradutora Denise Bottmann para o iBahia (blog de literatura)
  • Glossário do plágio e da transtextualidade ilícita, com verbetes como Copyfight, Cryptomnesia, Kenosis e Plagium crassissimum (El plagio literario)
  • Resenha de Camila Kehl para o livro “O ruído das coisas ao cair” do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez (livros abertos)
  • Carlo Carrenho estima que ebooks responderão por 2,63 por cento do mercado [brasileiro] em 2013 (tipos digitais)
  • Polêmica do prêmio anual de poesia da Biblioteca nacional: após anulação, prêmio vai para Ana Martins Marques (Prosa & Verso)
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Kobo vs. Kindle – Um panorama brasileiro

O escopo da comparação fica reduzida aos eReaders Kindle e Kobo pois são os únicos atualmente disponíveis à venda no mercado nacional e com preços muito mais competitivos que as versões tupiniquins Positivo Alfa e Cool-er.

O Kindle da Amazon ainda não está a venda no portal da própria empresa. O motivo parece ser o fato de que a logística de entregas físicas da Amazon aqui no Brasil ainda não está montada. Por isso a loja só foi inaugurada com eBooks, por enquanto. Como comprar o Kindle? O único portal que vende o eReader é o PontoFrio, pelo preço sugerido de R$ 299,00. Outra forma de comprar o Kindle é recorrendo a uma loja física da Livraria da Vila, em São Paulo.  Continue lendo

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