1 outubro, 2014

Entre o mundo e a câmera

Postado por Isabela Gaglianone

“La importancia de la fotografía no sólo reside en el hecho de que es una creación, sino sobre todo en el hecho de que es uno de los medios más eficaces de moldear nuestras ideas y de influir en nuestro comportamiento”. 

Gisèle Freund, auto-retrato.

La fotografía como documento social, da fotógrafa e estudiosa da fotografia Gisèle Freund, é um trabalho profundo que, publicado originalmente em 1974 – sob o título Photographie et Societé –, foi base para o desenvolvimento da reflexão sobre fotografia como conceito.

Freund pensa a fotografia à luz de sua história sociológica, política e artística. Mais do que simples técnica, a fotografia é aqui interpretada como elemento singular de conhecimento, localizada no entroncamento entre informação e arte.  Continue lendo

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30 setembro, 2014

A condição humana e a banalidade da violência

Postado por Isabela Gaglianone

“Que quem se cala quanto me calei, não poderá morrer sem dizer tudo”.

Ilustração de Günter Grass

A publicação de uma obra póstuma de um grande escritor como Saramago é um presente inestimável aos seus tantos leitores órfãos. É também a possibilidade de ver em germe sua criação literária, torrencial e precisa.

Em junho de 2010, quando faleceu, ele deixou em aberto a narrativa da história de Artur Paz Semedo, um homem simples, empregado de uma fábrica de armas, as Produções Belona S.A – Belona é o nome da deusa romana da guerra. Funcionário exemplar, que, se por um lado ambicionava crescer profissionalmente na empresa e dirigir uma área de armamentos pesados, por outro lado encontra conflitos morais, pois fora casado com uma pacifista radical, que dele divorciara-se por não concordar com o ofício armamentista.

O lançamento de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas – cujo título alude a dois versos da tragicomédia Exortação da guerra, de Gil Vicente – traz a lume uma obra, ainda que inconclusa, forte e bela, como comum ao grande escritor que foi Saramago. Continue lendo

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29 setembro, 2014

Olhar acuado, garganta seca, urgia achar uma saída

Postado por Isabela Gaglianone

“Achara um  de seus triunfos na vida da cidade, nos primeiros dias de adaptação, o ter conseguido orientar-se sozinho, com os nomes de bairros e números de linhas dos circulares e, alegre, com algum dinheiro para gastar, percorrer muitos trajetos, retornando sempre ao terminal no centro, feito fosse sempre necessário isso—os círculos bem descritos, as referências precisas—para que, aos poucos fosse se apossando do novo território”.

ilustração de Manu Maltez

O estranho no corredor, de Chico Lopes, é um livro instigante, narrado por uma consciência atormentada que confere ao texto uma atmosfera densa. A narrativa desperta reflexões profundas sobre o aprisionamento que é de ordem interna.

Conta a história de um homem solitário, cujo desejo é tornar-se um escritor, mantém um estilo de vida discreto, sobrevivendo com precariedade como professor em uma pequena escola de inglês. O protagonista divide parte de seu tempo livre com o diário no qual resgata e anota memórias de infância, parte com um círculo de conhecidos. Eis que com recorrência passa a aparecer-lhe uma figura masculina ameaçadora, que o persegue, ritmando o tempo da narrativa com seus passos, de “uma musicalidade escura”.

O livro ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, na categoria de Autor estreante.  Continue lendo

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26 setembro, 2014

Fotografia, filosofia

Postado por Isabela Gaglianone

[...] a fotografia é um objeto teórico e incide de maneira reflexiva tanto sobre o projeto crítico como sobre o projeto histórico que a escolhem como objeto”.

Duchamp, “O grande vidro”

O fotográfico, de Rosalind Krauss, é uma reunião de interessantíssimas maneiras de tomar a fotografia como rico objeto teórico, não apenas em si mesma, mas enquanto potencialidade multiplamente significativa.  São ensaios eruditos, de envergadura filosófica, que abrangem a arte e o próprio mundo contemporâneos. O livro inicia com um ensaio que investiga os espectros, registros fotográficos da emanação da luz de um corpo, tomando o daguerreótipo com o retrato de Honoré de Balzac como estopim retórico para pensar a fotografia como índice, registro semiótico de uma presença, colocada como causa no mundo que afeta o signo que a representa.

Em diálogo com Walter Benjamin e Roland Barthes, Krauss aponta problemáticas em que filosofia e história e teoria da arte entroncam-se. Em O fotográfico, ela discorre a partir da fotografia, não apenas sobre ela.

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25 setembro, 2014

Literatura com a curva e com a pedra

Postado por Isabela Gaglianone

2014 marca 40 anos do falecimento do uruguaio Juan Carlos Onetti, um dos maiores autores do século XX. O livro 47 Contos abarca toda a produção de prosa curta deste escritor que, chamado em seu país de “padrinho oculto e inquietante da literatura latino-americana do século XX”, magistralmente une tragédia e humor. Traduzido por Josely Vianna Baptista, foi lançado pela Companhia das Letras em 2006.

Onetti escreveu seus contos entre 1933 e 1993 e os publicou esparsamente em periódicos. São textos marcados por uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva. O escritor dizia encontrar seus temas em “sonhos diurnos”, por um “impulso onírico”. Sua literatura muito original, acompanha, com o uso poético da linguagem, a decadência contínua do homem, através de caminhos sinuosos e amargos.

Suas personagens são complexas e, regidas pelo inconformismo e pelo desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa María. Esse não-lugar, um pedaço de sonho de uma personagem, é cenário de diversos contos do escritor uruguaio, abriga seus desesperançados anti-heróis, representantes de uma classe média que vaga – geográfica, histórica e existencialmente –, à deriva.  Continue lendo

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24 setembro, 2014

De carne e osso

Postado por Isabela Gaglianone

Oswldo Goeldi, xilogravura, impressão póstuma

Carlos Henrique Schroeder acaba de lançar As fantasias eletivas, pela Record. Sua narrativa une prosa, poesia e fotografia, usando-os para pensar sobre a solidão e a criação literária. Uma forma literária que acaba por mostrar-se profundamente humana. Segundo o autor: “Quem ler o livro vai observar que são personagens de carne e osso, gente como a gente que tem problemas também”.

O livro conta a história de um recepcionista noturno de hotel que leva uma vida atormentada em Balneário Camboriú. Ele encontra, na improvável amizade com o travesti Copi e sua paixão por fotografia, uma alternativa para reconstruir sua vida e seguir em frente: ele lerá o que Copi escreve e será o único que terá acesso a suas fotos de surpreendente beleza.  Continue lendo

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23 setembro, 2014

O poeta nocaute

Postado por Isabela Gaglianone

Murilo Mendes, por Guignard

Finalmente parte da obra de Murilo Mendes recebe atenção editorial e ganha novas edições.

A Antologia poética, publicada agora pela Cosac Naify traz 142 poemas selecionados por dois especialistas na obra do poeta, prosador e crítico de arte juiz-forano, Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura, que também assinam o posfácio.

O volume conta ainda com um texto escrito pelo poeta, “A poesia e o nosso tempo”. Ensaio belo e profundo sobre a linguagem poética, no qual pode-se ler, por exemplo: “[...] Certo da extradordinária riqueza da metáfora – que alguns querem até identificar com a própria linguagem – tratei de instalá-la no poema com toda a sua carga de força”.

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22 setembro, 2014

Poética mítico barroca

Postado por Isabela Gaglianone

O poema-romance de Lezama Lima, Paradiso, é considerado uma das maiores referências literárias da América Latina. O autor cubano, poeta e ensaísta, é o mais expressivo escritor da corrente literária conhecida como neobarroco. Seu estilo, culto, é sustentado por metáforas e alegorias. Sua experimentação poética é marcada pelo excessivo, exagerado, rebuscado.

Paradiso, publicado originalmente em 1966, é a obra prima absoluta de Lezama Lima, exemplar da mais dinâmica vanguarda mundial. Livro neobarroco, narra com riqueza de detalhes a infância e a adolescência de José Cemi, espécie de alter ego do próprio autor, um intelectual cubano da década de trinta para quem a criação poética é a única via de salvação para o homem que, desterrado do paraíso da infância, encontra-se perdido no mundo à espera da ressurreição.

O próprio autor, sobre a obra, disse: “Meu romance tem um afã de totalidade; focaliza problemas essenciais da relação do homem e do cosmo. Meu romance é ou está dentro de um barroco fervoroso que assimila todos os elementos do mundo exterior: procura destruir uns, assimilar outros e, com esse fervor, consegue sua expressão um pouco mais barroca que gótica”Continue lendo

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19 setembro, 2014

“O fotógrafo saqueia e também preserva”

Postado por Isabela Gaglianone

“A humanidade permanece, de forma impenitente, na caverna de Platão, ainda se regozijando, segundo seu costume ancestral, com meras imagens da verdade”.

Susan Sontag, fotografia de Chris Felver

Sobre fotografia, de Susan Sontag, originalmente publicado em 1977, reúne ensaios que se tornaram clássicos pela originalidade com que extrapolam a reflexão sobre a história da fotografia e aprofundam-se na análise da nova ética da visão instaurada pelo advento da máquina fotográfica. Uma reflexão filosófica, sociológica e artística, sobre o mundo em que as relações humanas passaram a ser mediadas por imagens – “mundo-imagem”, como define Sontag.

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18 setembro, 2014

Rumo às entranhas da terra

Postado por Isabela Gaglianone

“O sono do homem do garimpo é repleto de explosões, de baques metálicos de ferro contra rocha, do chocalho das peneiras preenchidas de areia e cascalho. Sonha mais com o árduo trabalho que precede a pedra que com a pedra dos sonhos, o garimpeiro em seu catre. Com a pedra da riqueza, sonha muito mais acordado — o corpo em seu descanso e a mente em seu torpor são mais afeitos à realidade que o garimpeiro em pleno entendimento, durante a vigília”.

Portinari, “Garimpo”, 1938.

É no sertão garimpeiro que se desnovelam as tramas deste novo e belo romance de Estevão Azevedo. As diversas personagens de Tempo de espalhar pedras entrecruzam-se,, inseridas no cenário de um vilarejo que – metáfora nacional –, paulatinamente, é destruído por homens desesperadamente cobiçosos. Pois nas muitas serras ao redor daquela paisagem, quando já não há solo que não tenha sido maculado por explosões e picaretas, os homens têm a fatal percepção: as únicas superfícies ainda intocadas e que podem esconder pedras preciosas são aquelas em que suas próprias casas estão erguidas. Sob vielas e praças, sob salas, quartos, cozinhas e quintais, escondem-se suas últimas esperanças de sobrevivência ou fortuna.

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17 setembro, 2014

Ensaio sobre o medo e os fins

Postado por Isabela Gaglianone

A pergunta do título é desconcertante: Há mundo por vir?. O livro de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, lançamento co-editado pela editora Cultura e Barbárie e pelo Instituto Socioambiental (ISA), propõe uma reflexão séria a respeito dos atuais discursos sobre “o fim do mundo”.

Lasar Segall

Atualmente, os materiais e análises sobre as causas (antrópicas) e as consequências (catastróficas) da “crise” planetária vêm se acumulando com extrema rapidez, mobilizando tanto a percepção popular quanto a reflexão acadêmica. Os discursos que traçam prognósticos fatalistas são pelos dois autores tomados como experiências de pensamento, como tentativas de invenção, não necessariamente deliberadas, de uma mitologia adequada ao presente.

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16 setembro, 2014

Poeta do enxofre

Postado por Isabela Gaglianone

“Acordei ácido. É primeiro de ano. Primeiras horas da manhã. De toda forma, oito e meia, para um ex-sedentário, não deixa de ser uma vitória: primeiras horas, ainda que a manhã dos sábios tenha começado lá pelas cinco. Os sábios são como o sol. Chego lá.”

Companhia Brasileira de Alquimia, de Manoel Herzog, concorre como semifinalista na categoria romance, do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. O livro foi lançado em novembro do ano passado pela editora Patuá. Conta a história de Germano Quaresma, operador em uma indústria que transforma chumbo em ouro. Ao longo de sua rotina mecânica, o protagonista tece reflexões pessoais sobre as relações sociais modernas, da falta de cumplicidade profissional ao seu casamento com Cláudia. Solitário, ele encontra em clássicos da literatura a amizade que lhe falta no mundo.

No prefácio, o escritor Ademir Demarchi analisa: “Que o leitor acostumado com ficções urbanas, misérias, crimes e histórias de amor, que são marca da literatura contemporânea brasileira, se prepare: saiba de antemão que, diversamente, este romance se passa dentro de uma indústria química multinacional, em meio a fornos, máquinas e produtos químicos e num tom irônico de narrativa, sem cair no cacoete da idealização romântica de esquerda dos operários. Continue lendo

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15 setembro, 2014

Lucratividade insone

Postado por Isabela Gaglianone

Edvard Munch

24/7 – Capitalismo tardio e o fim do sono, de Jonathan Crary, chega ao Brasil publicado pela CosacNaify, com tradução de Joaquim Toledo Jr.

De uma ironia cáustica e bem humorada, o livro expõe a complexidade da lógica mercantil para a qual a própria necessidade de repouso humana é um empecilho. Seu diagnóstico agudo identifica um mundo cujo funcionamento e cuja própria lógica não se prendem mais a limites de tempo e espaço. Crary mostra que hoje são financiadas pesquisas científicas que buscam desenvolver uma fórmula para criar o “homem sem sono”, capaz de trabalhar e consumir “24/7”: 24 horas, durante os sete dias da semana. O livro, por outro lado, resgata uma tradição da cultura ocidental que percebe no sono e no sonho possibilidades utópicas.  Continue lendo

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12 setembro, 2014

Um depósito de ferragens transformado em Lira

Postado por Isabela Gaglianone

“Era ali que as coisas aconteciam… Era uma espécie de catacumba, onde se faziam muitas coisas que não aconteciam na superfície” (Luiz Tatit).

Festa do Lira Paulistana, 1983.

Entre 1979 e 1986, na rua Teodoro Sampaio, funcionou o lendário Teatro Lira Paulistana que agora, depois de ter-se tornado documentário em novembro do ano passado, ganha registro impresso no livro Lira Paulistana – Um delírio de porão, escrito por Riba de Castro, lançado ontem à noite em São Paulo. Quem perdeu o lançamento, pode, hoje à noite, ver a exibição do documentário Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, seguida de um bate-papo, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, na Rua Henrique Schaumann, 777, em Pinheiros, São Paulo.

Riba de Castro foi um dos sócios do Lira Paulistana e, no livro, conta a história daquele significativo pólo cultural paulistano. O volume é ilustrado por vasto material iconográfico, entre fotografias, cartazes de divulgação, capas de livros, discos e jornais produzidos pelo teatro, além de depoimentos de artistas, produtores culturais e jornalistas. Realizado com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura, o livro tem patrocínio da Natura Musical: o resultado dos incentivos é o preço, quase simbólico do livro (na 30porcento, só 14,00).  Continue lendo

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11 setembro, 2014

A força verbal de Yuri Herrera

Postado por Isabela Gaglianone

Diego Rivera

O livro Señales que precederán al fin del mundo, do mexicano Yuri Herrera, é considerada uma das mais belas e precisas novelas escritas em língua espanhola nesta virada de século. Herrera recria a história mexicana, através de suas lendas do passado e do presente, amalgamando seu território real a seu território imaginário mitológico, resquício das culturas pré-colombianas.

Através das nove etapas dos mitos, a protagonista Makina, personagem cuja realidade não encontra paralelos na literatura contemporânea, atravessa esta história fabulosa.

Nas palavras de Elena Poniatowska, o livro é escrito “Com uma precoce sabedoria que somente se adquire com a dor. Yuri Herrera expõe as falácias humanas, o mundo dos subúrbios, das adegas, dos prostíbulos e de suas marcas, a droga, as armas, a morte”.   Continue lendo

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