21 agosto, 2014

Literatura de orelhada

Postado por Isabela Gaglianone

Hieronymus Bosch

Delírio de Damasco, de Veronica Stigger, é uma reunião de fragmentos de conversas alheias, ouvidas ao acaso pelo caminhante urbano. Segundo a autora, o livro forma uma “espécie de arqueologia da linguagem do presente, em busca da poesia inesperada − dura ou terna, ingênua ou irônica − que pudesse haver em meio a nossos costumeiros diálogos sobre a tríade sangue, sexo, grana”.

Como aponta Flávia Cera, na apresentação do livro:  “É difícil passar indiferente à leitura dos textos de Veronica Stigger. Seja pela forma ou pela força de seus textos, seja pelo contorcionismo ou despedaçamentos dos corpos que os habitam. Em Delírio de Damasco, não é diferente. Nele, Veronica se arrisca em uma literatura-limite. No limite da ficção, da narrativa, do sentido, no limite da literatura”. Continue lendo

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20 agosto, 2014

Perscrutações fotográficas

Postado por Isabela Gaglianone

Fotografia de Stephen Shore

O lançamento A natureza das fotografias, do fotógrafo Stephen Shore, propõe uma educação do olhar para a fotografia. Com tradução de Donaldson M. Garschagen, o livro, que chega ao Brasil pela CosacNaify, oferece uma abrangente reflexão, baseada na vasta experiência do autor como fotógrafo e professor do Programa de Fotografia no Bard College. Stephen Shore explora maneiras de ver e entender qualquer tipo de imagem fotográfica, desde negativos a arquivos digitais, de fotos feitas por desconhecidos até as mais conhecidas e mesmo icônicas, analisando-as através da identificação de níveis de percepção, abordando de maneira técnica, teórica e metafórica conceitos como bidimensionalidade, enquadramento, tempo e foco.

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19 agosto, 2014

“Eu gostaria de fazer uma colocação”

Postado por Isabela Gaglianone

Gauguin, “Auto retrato”

Lançado em julho, o livro O louco de palestra, de Vanessa Barbara, reúne crônicas publicadas originalmente em jornais como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e revistas como piauí. Os textos versam com graça sobre figuras típicas de bairros paulistanos, sobre linhas de ônibus na aglomerada cidade, comentários televisivos, observações sobre o urbanismo desmazelado das cidades brasileiras. A autora cristaliza tipos que sempre existiram, identificando-os e definindo-os. Bem-humoradas e sagazes, as observações sobre os tipos brasileiros misturam-se às dos específicos tipos paulistanos, através da peculiaridade da escrita da jovem autora, cujo tom e exemplos torna sua prosa acessível e interessante a qualquer pessoa. Aliando delicadeza, humor e certo escárnio, os textos de Vanessa Barbara ocupam um lugar movediço, ao mesmo tempo intermediário entre a reportagem, a crônica, o ensaio e a antropologia.  Continue lendo

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18 agosto, 2014

Autoficção

Postado por Isabela Gaglianone

Egon Schiele

O mais recente livro de Marcelo Mirisola, Hosana na sarjeta, acaba de ser lançado pela Editora 34. O romance inicia-se em frente à lendária boate Kilt, em São Paulo, e narra as venturas e desventuras do protagonista MM, às voltas com algumas mulheres. Uma, Paulinha Denise, um tipo de Capitu mareada, loira descolorida, com problemas de identidade; Ariela, a “outra”, espécie de Lolita casada, verdadeira mentira ambulante. Na trama, um diamante contrabandeado, um réveillon  no Rio de Janeiro e uma terrível maldição, proferida por uma cigana: “Você nunca vai amar ninguém nessa vida”.

Segundo Rodrigo Casarin, em análise escrita ao Suplemento Pernambuco, faz uma colagem com as personagens femininas do livro, breves definições de cada uma que dão uma mostra da observação mordaz deste narrador. Casarin resalta a precisão da prosa de Mirisola e, sobre a narrativa do livro, resume: “A história começa num arquipélago na ilha de Sumatra — um dos quatro territórios da Oceania no War, célebre jogo de tabuleiro — e passa por São Paulo, Guarulhos, Rio de Janeiro, Suzano e interior de Minas Gerais. Nas suas primeiras páginas, Marcelo Mirisola, o protagonista, ouve de uma marmiteira que também lê tarô que irá correr o mundo e desfrutar do sexo de muitas mulheres — clarividência que reverbera por toda a obra do escritor”. Continue lendo

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15 agosto, 2014

Formas esquivas do mal

Postado por Isabela Gaglianone

Cegueira Moral reúne cinco diálogos de Zygmunt Bauman com Leonidas Donskis, filósofo e professor de ciência política na Universidade de Vytautas Magnus, na Lituânia.

O livro, que tem como subtítulo “A perda da sensibilidade na modernidade líquida”, constitui-se como materialização de um debate a respeito da insensibilidade diante do sofrimento do outro, fenômeno concomitante ao desejo de controle sobre a privacidade alheia.

Os filósofos abordam o problema do mal não restringir-se às guerras ou circunstâncias extremas como nas quais as pessoas agem forçadas por condições de coerção. O mal atualmente, mostra-se na passividade com que se assiste ao sofrimento alheio. Uma miopia ética, cegueira moral, que disfarça-se sob o signo da banalidade cotidiana.  Continue lendo

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14 agosto, 2014

Ceticismo convicto

Postado por Isabela Gaglianone

Inácio Araújo lançou, na última quinta-feira, o livro Urgentes preparativos para o fim do mundo, coletânea de contos publicada pela editora Iluminuras. Sete das treze narrativas foram resgatadas em 2007, após vinte anos guardadas: sua retomada gerou os outros contos e, por fim, o livro.

Em 1987, quando as primeiras histórias foram esboçadas, o autor acabara de lançar o romance Casa das Meninas (1987, em 2a. ed. pela Imprensa Oficial do Estado, disponível apenas em sebos), pelo qual ganhou o prêmio de autor revelação pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Os filmes e o trabalho como crítico para o jornal Folha de São Paulo, postergaram a continuação, que enfim se concretiza, como um trabalho depurado.

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13 agosto, 2014

Observações sarcásticas

Postado por Isabela Gaglianone

Finalmente é publicado no Brasil um volume que traz o trabalho da alemã Franziska Becker, 64, que, considerada uma das mais brilhantes cartunistas da Alemanha, inspirou toda uma geração de quadrinistas, cartunistas e ilustradores. Último aviso reúne uma seleção de cartuns e quadrinhos curtos publicados em diferentes jornais e revistas: trata-se de um livro bastante representativo da obra de Franziska e de sua brilhante e profunda oscilação entre o absurdo e a crítica. Desde a década de 1970, suas charges vem formulando uma crônica mordaz sobre a vida e o mundo contemporâneos. Sua visão apresenta um retrato sarcástico da existência, de maneira a um só tempo crua e lúdica, uma crítica instigante dotada de um humor cortante. Com seu traço cômico e desenhos ironicamente engraçados, através de um olhar feminista Franziska problematiza a ditadura da beleza, as relações conjugais, o novo papel da mulher no mercado de trabalho, questões como consumo, moda, dinheiro, política e religião. Irreverente, burlesca e sagaz.

O livro inaugura o selo “Barricada” da editora Boitempo, que será dedicado à publicação de quadrinhos.

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12 agosto, 2014

Jogue fora os atalhos

Postado por Isabela Gaglianone

Nyjah Huston, por De’Von Stubblefield

O novo livro de poesia do gaúcho Paulo Scott, Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras.

Scott é considerado um dos mais originais poetas brasileiros atuais. Sua poesia é quase prosaica no que tem de fluência ao apresentar histórias e episódios – sobre amores perdidos ou recém chegados, sobre as derrocadas da vida, a violência nas relações humanas, a busca pelo sublime no cotidiano de um escritor brasileiro. A força narrativa de seus poemas permite que sejam lidos quase como se fossem pequenos contos.

Nas palavras de Paulo Henriques Britto: “Neste livro, Paulo Scott deixa bem claro ter plena consciência do que se exige de sua geração, surgida num momento em que, pela primeira vez, após bem mais de meio século, cada poeta tem de construir sua linguagem a partir de um legado diversificado e acachapante, sem as rotas de percurso alternativas que balizaram, para o bem e para o mal, aqueles que os antecederam”.

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11 agosto, 2014

“Deus é, era, gago”

Postado por Isabela Gaglianone

pintura de Honoré Daumier

Glória, romance de Victor Heringer, mistura humor e ironia para narrar a saga da família Costa e Oliveira e as aventuras e desventuras dos irmãos Abel, Daniel e Benjamim, respectivamente um pastor, um burguês e um artista, que, após a morte do pai, guardam como sua herança nada mais que a prontidão a nunca perder uma piada. O livro, finalista do Prêmio Jabuti no ano passado, traça uma ponte entre os séculos XIX e XXI, criando uma (meta)ficção que vai de referências a Machado de Assis a questões inerentes à internet, passando pelo café Aleph e suas figuras virtuais. O autor é hábil no uso, com uma prosa fluente, de um amplo repertório de recursos estilísticos aliado a um leque de referências literárias.

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8 agosto, 2014

Palavras de carne e com asas

Postado por Isabela Gaglianone

Brueghel, “Paisagem com a queda de Ícaro”

Os poemas de Ana Luisa Amaral reunidos sob o título Vozes versam, também, sobre os silêncios. Em sua lírica, estes são opostos cuja recíproca implicação une-os na própria plenitude daquilo que de mais verdadeiramente paradoxal há nesta união: sua poesia alcança o que há de mais íntimo na natureza humana em sua existência como ser em um mundo concreto e real.

Fala com Ícaro, mas pressente o chão quando, na verdade, dialoga com Brueghel; seu poema teria pregas servindo como vestido ao corpo da prosódia; “escrevia / de beijos que não tinha / e cebolas em quase perfeição”; encontra o avesso das palavras.

Uma das maiores poetas contemporâneas de Portugal, Ana Luísa Amaral já recebeu alguns prêmios importantes, dentro e fora do seu país, como o Prêmio de Poesia António Gedeão, recebido em 2011 pelo livro VozesContinue lendo

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7 agosto, 2014

Narrativa profunda, poética densa

Postado por Isabela Gaglianone

“Sim, claro, se amanhã fizer bom tempo.”

Fotografia de Jean Guichard

Ao farol, de Virginia Woolf, é uma transcriação artística das experiências vividas pela escritora na casa de praia de sua família, na baía St. Ives, na Cornualha, Inglaterra, de onde ela podia avistar o farol da ilha de Godrevy. No romance, através das personagens Sr. e Sra. Ramsay, ela problematiza, desloca e formula sua relação com seu pai, Leslie Stephen, um “espartano, ascético, puritano”, e com sua amada e belíssima mãe, Julia Stephen que morreu quando Virginia Woolf tinha apenas treze anos – tragédia pessoal que desencadeou então o primeiro dos colapsos nervosos que atormentariam a escritora ao longo de toda sua vida. A própria Virginia ganha vida no livro como a pintora Lily Briscoe, que passa as férias de verão na Ilha de Skye, na Escócia, ao invés de St Ives. Sua memória, porém, é apenas a matéria bruta, que a autora esculpe para dar forma a este magnífico romance.

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6 agosto, 2014

Música epistolar

Postado por Isabela Gaglianone

Igor Stravinsky e Jocy de Oliveira

A pianista e compositora Jocy de Oliveira lança hoje em São Paulo seu livro Diálogos com cartas, composto por um conjunto de cento e doze cartas, recebidas por ela ao longo de quarenta anos. Uma correspondência preciosa, pois testemunho vivo da exposição de ideias, vivências e realizações de alguns dos maiores músicos eruditos do século XX. São cartas de Igor Stravinsky, Robert Craft, John Cage, Luciano Berio, Karlheinz Stockhausen, Iannis Xenakis, Eleazar de Carvalho, Claudio Santoro, Lukas Foss, Robert Craft e Olivier Messiaen, trocadas ao longo de décadas com a pianista. Além das cartas em fac-símile, o livro reproduz algumas primeiras versões de partituras manuscritas e não editadas. Esse raríssimo material é inteiramente originário do acervo pessoal de Jocy de Oliveira, que ao longo do livro contextualiza os fatos mencionados e explica circunstâncias, comenta as cartas, de modo a oferecer ao leitor um panorama interessante e completo de sua vivência artística e pessoal junto a esses compositores. Jocy, que foi solista em duas ocasiões sob a batuta de Stravinsky, recebeu, na qualidade de pianista e amiga, peças especialmente escritas para ela por compositores como Berio, Cage, Xenakis e Santoro. Como pianista, ela gravou para os selos Vox e Polygram dos EUA, grande parte da obra de Messiaen.

O lançamento em São Paulo ocorrerá hoje, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, às 19h30. Continue lendo

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5 agosto, 2014

Textos conversas

Postado por Isabela Gaglianone

O trabalho ensaístico de José Paulo Paes é tão preciso quanto sua poesia. Organizada pela escritora Vilma Arêas, a reunião de alguns dos ensaios de Paes, neste volume, intitulado Armazém literário, trouxe aos leitores a possibilidade de encontrar textos tocantes cujos livros de publicação original há muito estão esgotados no mercado brasileiro. Com prosa fluente e elegante, Paes lida com assuntos graves a partir de autores como Machado de Assis, William Blake ou Simone Weil, ou então, utilizando toda a liberdade da forma ensaística, reflete sobre o ofício de poeta e sobre sua própria “linhagem” na poesia brasileira; no ensaio “Para uma pedagogia da metáfora”, por exemplo, expõe sua concepção de poesia como metáfora do mundo, com “seu poder de revelar o universal no particular”. Há também ensaios sobre a arte da tradução de poesia, que Paes praticou até o fim da vida – verteu para o português autores de várias línguas, como o americano William Carlos Williams, os gregos Konstantínos Kaváfis e Giorgos Seféris, o francês Paul Éluard, o alemão Rainer Maria Rilke.

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4 agosto, 2014

Filosofia e arte

Postado por Isabela Gaglianone

Marcel Duchamp

O descredenciamento filosófico da arte, de Arthur C. Danto, desenvolve interessantes considerações estéticas, suscitadas pelas análises da filosofia e da arte, tanto modernas quanto contemporâneas, envolvendo sobretudo o problema do esmaecimento das distinções claras para a definição de uma obra enquanto artística.

Publicado no Brasil pela editora Autêntica, com tradução realizada pelo professor Rodrigo Duarte, o livro representa relevante contribuição para as discussões estéticas em torno da arte contemporânea.

A obra traz nove ensaios, que abrangem diferentes perspectivas, porém tendo como pano de fundo a filosofia da história da arte. Continue lendo

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1 agosto, 2014

Erudito mítico sertanejo

Postado por Isabela Gaglianone

Ariano Suassuna nasceu em junho de 1927. No na seguinte, sua família mudou-se para a Fazenda Acauhan, no sertão da Paraíba, pois seu pai, João Suassuna, então recente ex-governador, temia ações de inimigos políticos. João foi morto em 1930, mesmo ano em que Ariano iniciou seus estudos. A família então mudou-se para Taperoá e, sete anos depois, para Recife, onde Ariano intensificou seu contato com a literatura. “Comecei a querer ser escritor aos 12 anos, quando fiz meu primeiro conto. Na época, era um assassino terrível. Quando não sabia o que fazer com um personagem, matava”, contou. Em 1945, teve publicado seu primeiro texto, o poema “Noturno”, no Jornal do Commercio. Ao longo de sua vida, seguiu escrevendo peças, romances, poemas, ensaios, teses. Enquanto membro fundador do Conselho Nacional de Cultura e Diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE, articulou o Movimento Armorial, defendendo a criação de uma arte nordestina erudita, concebida a partir de suas raízes populares.

Ao completar 80 anos de idade, em 2007, Ariano Suassuna foi homenageado em todo o Brasil pela grandeza de seu trabalho. Pouco antes, dissera: “A literatura é uma forma de protestar contra a morte”.

O Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta é narrado como um romance autobiográfico de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quadrena, que proclamara a si mesmo “Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta da Igreja Católico-Serteneja e pretendente ao trono do Império do Brasil”. Continue lendo

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