23 abril, 2014

Idade d’Ouro

Postado por Isabela Gaglianone

O livro Um tipógrafo na Colônia, do jornalista Leão Serva, é um relato histórico e jornalístico da história de seu tataravô, Manoel Antonio da Silva Serva (1760-1819), que foi o criador do primeiro jornal não-oficial publicado e editado no Brasil, em 1811, o “Idade d’Ouro”, bem como da primeira revista nacional, “Variedades ou Ensaios de Literatura”, publicada em 1812. Fundada em Salvador, sua tipografia foi a primeira de propriedade particular no Brasil-colônia.

Apesar dos feitos editoriais, bem como de seu pioneirismo, Silva Serva é hoje mais conhecido por ter popularizado as famosas fitinhas do Senhor do Bonfim, cuja origem é também descrita no livro.  Continue lendo

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22 abril, 2014

Uma resposta eficiente

Postado por Isabela Gaglianone

“Tem-se a impressão de que a esquerda está imobilizada, no nível da teoria e por conseguinte no da prática, pela ideia de que deve ficar o tempo todo revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação”.

Ekaterina Panikanova

Por uma esquerda sem futuro, do historiador e crítico de arte marxista britânico T. J. Clark, analisa a encruzilhada em que se encontra a esquerda, incapaz até agora de propor respostas à crise econômica e social deste início de século XXI. O ensaio foi originalmente publicado na “New Left Review” – periódico sobre política fundado na década de 1960 – e pensa a utopia e o pragmatismo no pensamento de esquerda, defendendo que a esquerda deve reinventar sua resistência através do combate à desigualdade e à injustiça social, não através de ideias utópicos. Segundo ele, se a esquerda quiser permanecer existindo como geradora de ideais políticos relevantes, deve realizar uma revisão dos totalitarismos do passado e renunciar, nesta era de consumo e crescimento insustentáveis, a toda noção messiânica de futuro.  Continue lendo

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17 abril, 2014

De volta à terra

Postado por Isabela Gaglianone

O livro onde o céu descasca, de Lu Menezes, é tido como um dos livros mais bonitos publicados nos últimos anos no Brasil. Sua poesia desenvolve-se sobre cenários imperfeitos, transitórios, imensuráveis. Os assuntos que lhe servem como meio entroncam-se entre a solidão e o medo, a crença e a descrença, através de janelas a esmo, sotaques e paisagens distantes, palmeiras ao vento. Desvendando e decifrando enigmas naquilo que parecia evidente, seus versos exigem uma sensibilidade necessária para ultrapassar a compreensão.

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16 abril, 2014

Metatradução

Postado por Isabela Gaglianone

Alain Badiou é considerado um dos principais filósofos franceses da atualidade e um dos mais importantes intelectuais vivos. Atualmente, é professor emérito da École Normale Supérieure de Paris, onde criou o Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine. Sua trajetória intelectual é marcada pelo ativismo político. Não é à toa, portanto, que neste volume ele se volte a um dos textos mais importantes da história da filosofia e da humanidade, o famoso diálogo de Platão A República – texto que discute uma cidade ideal em que a cidadania seria fruto da bom exercício da práxis política. Badiou, ao retraduzir a obra e adaptá-la aos nossos tempos reafirma a universalidade do texto, removendo todas as alusões específicas à sociedade grega antiga e inlcuindo as referências culturais contemporâneas.  Continue lendo

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15 abril, 2014

Desenhos de Iberê

Postado por Isabela Gaglianone

iberecamargo

Este volume da coleção “Cadernos de desenho” dedicado a Iberê Camargo traz 111 desenhos, percorrendo mais de meio século da produção do artista: desde seus primeiros desenhos, feitos em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, passando por aqueles realizados no período em que viveu em Roma e Paris, chegando até os desenhos feitos às vésperas de sua morte. Organizado por Lygia Eluf, o livro conta com uma introdução analítica escrita pelo professor Eduardo Kickhöfel. As imagens pertencem ao acervo da Fundação Iberê  Camargo e muitos são, aqui, publicados pela primeira vez.

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14 abril, 2014

Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.

Postado por Isabela Gaglianone

A realidade é muito mais bonita do que o sonho.

A escritora Carolina de Jesus, conhecida por Quarto de despejo (1960), é uma singular figura literária: catadora de papel, tornou-se escritora e foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas que, em meio a uma reportagem, na favela do Canindé, em São Paulo, surpreendeu-se ao vê-la ameaçando seus vizinhos de que os incluiria em um livro.

Como conta Maurício Meireles, em artigo para O Globo, ele “se aproximou e pediu para ver o tal livro. Ao chegar no barraco de Carolina, pôde ver as anotações feitas pela mulher em cadernos — vários deles catados no lixo. Mais tarde, Audálio descreveu o cotidiano dela: “Se tem pão, come e dá aos filhos. Se não tem, elas choram, e ela chora também. O pranto é breve, porque ela sabe que ninguém ouve, não adianta nada”. Segundo Audálio Dantas, a obra de Carolina de Jesus “tem tanto interesse como documento quanto do ponto de vista da criação. Ela descrevia seu dia a dia com muita força, com interpretações inteligentes”.

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11 abril, 2014

Temível pirata

Postado por Isabela Gaglianone

Khair ed-Din (1470-1546), cujo nome significa “protetor da fé”, de cabelo e barba ruivos passou a ser conhecido e temido em todo o Mediterrâneo como Babarossa, o pirata. Escrito por Ernle Bradford, este volume é um interessante estudo histórico desvendando essa figura mítica e extraordinária, a própria personificação do que viria a ser eternizado como a temível figura do pirata.

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10 abril, 2014

Nas pálpebras do tempo

Postado por Isabela Gaglianone

“Muitos poetas chegam a escrever grandes poemas, poucos compõem uma grande obra”, Alcides Villaça disse sobre Ferreira Gullar. Sobre si, Villaça observa que não compõe livros; simplesmente escreve poemas, de forma assistemática, e os reúne em livros. Foi assim com este Ondas curtas, coletânea de 71 poemas inéditos escritos ao longo dos últimos anos. Alcides Villaça é o professor especialista em literatura brasileira na Universidade de São Paulo. Como crítico, já realizou trabalhos importantes de análise sobre as obras de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar (poeta que analisou em seu doutorado, defendido em 1984, sob o título “A poesia de Ferreira Gullar”) e Manuel Bandeira.

Ondas curtas, lançado no final de março pela Cosacnaify, é o seu quarto livro de poesia. Continue lendo

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9 abril, 2014

Por uma literatura menor

Postado por Isabela Gaglianone

“O meu emprego é intolerável porque contradiz o meu único desejo e a minha única vocação que é a literatura. Como eu nada sou senão literatura, que não posso nem quero ser outra coisa, o meu emprego nunca poderá ser causa de exaltação, mas poderá, pelo contrário, desequilibrar-me completamente. Aliás, não estou muito longe disso”.

Essas palavras, escritas por Kafka ao pai de sua noiva, Felice Bauer, ilustram a leitura de sua obra enquanto retrato da literatura e do pensamento judaicos, ligada ao desenraizamento e à perseguição. Deleuze e Guatarri, entretanto, neste seu estudo interpretativo, deslocam os problemas tradicionais, do trágico e da culpabilidade, para os da alegria e da política: a política que atravessa o gênio e a alegria que o comunica. Segundo os autores, “nunca houve autor mais cósmico e alegre do ponto de vista do desejo; nunca houve autor mais político e social do ponto de vista do enunciado”. Kafka cria um espaço literário, utilizando critérios totalmente novos.  Continue lendo

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8 abril, 2014

Poesia delirante

Postado por Isabela Gaglianone

Gravura original de Hans Bellmer – Les Chant de Maldoror,1971.

Isidore Lucien Ducasse, sob o pesudônimo Conde de Lautréamont, tornou-se conhecido como um dos poetas mais instigantes do século XIX. Nascido em Montevidéu, “nas costas da América, na foz do La Plata”, como diz o Canto I da sua obra-prima Os Cantos de Maldoror, ao final da infância mudou-se com o pai para a França. Ali, desenvolveu uma poesia que, por André Breton, foi considerada um dos precursores do surrealismo, e que fascinou autores tão diversos como Malraux, Gide, Neruda e Ungaretti. Lautréamont, porém, morreu aos 24 anos, em 1870, desconhecido. Somente dezesste anos depois de sua morte começou a tornar-se o mito que é hoje em dia, graças a sua extraordinária ousadia e à criatividade completamente livre de seu texto. O filósofo Gaston Bachelard foi um dos primeiros a formular em um livro seu comentário à obra de Lautréamont, em 1939. Octavio Paz, por exemplo, com a linguagem de um Maldoror, disse: “A história da poesia moderna é a de um descomedimento. [...] O astro negro de Lautréamont preside o destino de nossos maiores poetas”.

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7 abril, 2014

Crônicas ladeira-abaixo

Postado por Isabela Gaglianone

O Cristo empalado, de Marcelo Mirisola, é uma compilação de quase 40 textos – entre contos, crônicas e ensaios –, publicados originalmente no site Congresso em foco. No prefácio, Aldir Blanc observa: “Mirisola não economiza ofensas, não poupa os bem-pensantes tão em voga, mija nos que se julgam puros, esmerdalha os himmlers que se autoiçaram. Os textos, como o autor, são paradoxais: nos iluminam por suas sombras, nos redimem lançando maldições, nos lavam a alma ao enfiá-la de cabeça no pântano em que vivemos”.

Escrachado, sucinto e direto, Mirisola, na crônica que dá título ao volume, apresenta a tese de que é a cruz que carrega Cristo nas costas, e não o contrário: se ele tivesse sido empalado, “a Igreja e os seus subprodutos mais sórdidos simplesmente não existiriam”.  Continue lendo

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7 abril, 2014

O tempo que paira em sonho

Postado por Isabela Gaglianone

felisberto-hernandez

“[...] com um pedaço de mim mesmo, formei a sentinela que faz a guarda de minhas recordações e de meus pensamentos; mas ao mesmo tempo devo vigiar a sentinela para que ela não se entretenha com o relato das recordações e adormeça. E ainda tenho que lhe emprestar meus próprios olhos, meus olhos de agora”.

Há uma vida que se vive e uma vida que se sonha. A literatura de Felisberto Hernández, porém, brota de um estranho entroncamento entre ambas: suas histórias são memórias de sonhos. Deixam entreaberta a divisória entre o fantástico e o real e, ao atravessarem-na, a transformam numa mera suposição, difusa e ambígua. Talvez por isso Felisberto seja um escritor tão diferente – segundo Italo Calvino, “um escritor que não se parece com nenhum outro: com nenhum europeu e com nenhum latino-americano; é um franco-atirador que desafia toda classificação ou rótulo, mas que se mostra inconfundível ao abrirmos qualquer uma de suas páginas”. Sua literatura desenrola-se com suavidade onírica e um lirismo singelo. Sua prosa é simples, intelectual e intimista e tem um tom a um só tempo melancólico e humorado. Suas histórias resgatam e resguardam todo o esplendor das reminiscências, o conhecimento da origem e do retorno que provém da memória, dos sonhos e dos ricos encontros entre ambos.

Seus personagens são suas lembranças. Os contos são escritos em primeira pessoa, um personagem que é, ao longo das histórias, Continue lendo

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4 abril, 2014

De Michael Jackson a Pietá

Postado por Isabela Gaglianone

Em A Calma dos Dias, lançado em março pela Companhia das Letras, Rodrigo Naves mantém aspectos elogiados do seu trabalho ficcional em O filantropo, como a prosa concisa aliada a conclusões ácidas e lúcidas. A multiplicidade de gêneros, aqui, é trabalhada de maneira ainda mais rica. Poesia, conto e ensaio se entrelaçam formando um tecido que busca sentido comum no inusitado, de maneira ao mesmo tempo crítica e lírica, permeada por uma aspereza nova, que aqui invade a prosa de Naves. A calma dos dias coloca em confronto a resistência e a fluidez da matéria num mundo desencantado.

O livro interpõe ensaios sobre a situação cultural contemporânea — reality shows, Gisele Bündchen, Michael Jackson — a pequenas ficções, perfis e obituários de artistas e amigos, análises de obras e indagações filosóficas. Continue lendo

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3 abril, 2014

A arte como procedimento

Postado por Isabela Gaglianone

Em Teoria da literatura – Textos dos formalistas russos, Tzvetan Todorov revelou aos leitores franceses a existência da escola de análise literária que prosperara em São Petersburgo e Moscou entre 1915 e 1930. Esta coletânea é uma das poucas publicadas no Ocidente que apresentam textos escritos pelos chamados formalistas russos, cuja escola formalista revolucionou a crítica literária, originou a lingüística estrutural e influencia até hoje o pensamento científico. Sua metodologia, original e teoricamente bem estrturada, de análise literária, é considerada pioneira na fundamentação da teoria literária contemporânea.

Segundo Boris Scnaiderman, “numa época de grandes discussões, na época em que o suprematismo de Maliévitch, o construtivismo, a poesia de Kliébnikov e Maiakóvski subverteram todas as noções de consagrado, na época das transformações do palco cênico por Meyehold e da sucessão de imagens até então conhecida no cinema, realizada por Eisenstein, o assim chamado formalismo russo procurou na literatura viva e não apenas nos monumentos do passado aquilo que podia caracterizar a linguagem da obra literária”.  Continue lendo

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2 abril, 2014

A origem da origem

Postado por Isabela Gaglianone

“Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção”.

 

Carola Saavedra está colocada entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta. Naturalizada brasileira aos três anos de idade, considera a língua portuguesa como sua pátria.

Tendo já publicados, no Brasil, três romances – Toda terça (2007), Flores azuis (2008) e Paisagem com dromedário (2010), todos também publicados pela Companhia das Letras – em O inventário das coisas ausentes, ela manteve a forma de fazer literatura exploradas nos trabalhos anteriores: “Quando conto uma história, com ela vem outra”, diz a autora. Aqui, há duas histórias, ligadas pela questão que é tema do livro: a conjugação da vida e da narrativa ao longo da escrita de um romance.  Continue lendo

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